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PROJETANDO VIZINHANÇAS COMUNITÁRIAS
  Enviado em Wed 27 May 2009 por thiago tognozzi (464 leituras)
Quando um amigo se mudou alguns anos atrás, chamamos amigos e parentes para ajudar. Pessoas vieram de mais de 10 quilômetros de distância para ajudar. Por quê? Porque não havia espírito de vizinhança comunitária para pedir ajuda. A vida parece ser metade vivida em casa e metade vivida a 20km de distância. E os espaços entre esses dois pontos? Onde está nosso sentido de comunidade? Nossa vizinhança parece estar morta.

POR QUE VIZINHANÇA?

Todos vivemos em uma comunidade, mas nossas comunidades carecem de características funcionais e estruturais. Bens e serviços vêm de qualquer lugar e são enviados para qualquer lugar. Vamos trabalhar em qualquer lugar fora de onde moramos. Um exemplo comum da nossa falta estrutura comunitária é a comida. Há duas pontas no sistema de produção e distribuição de alimentos: o lugar onde a comida é plantada (as hortas e plantações) e o lugar onde o alimento é consumido (a casa). Eles costumam estar longe um do outro e dependem do transporte, das embalagens e da estocagem, incluindo o transporte pela família e a refrigeração doméstica. O lugar mais eficiente para produzir a maior parte dos alimentos é a vizinhança local.

Muitos outros processos econômicos poderiam ser mais produtivos na comunidade local, como construção de casas, manutenção de construções e equipamentos, fabricação de móveis, oferta de lenha, florestamento, serviços de jardinagem, trabalho, cuidado com as crianças, materiais de segunda mão. Outros produtos podem ser comprados no atacado para toda a vizinhança.

Se um monte de atividades de trabalho acontecem localmente, nossos locais de trabalho também serão locais. Compare com a situação atual: um terço da semana de trabalho é perdida em transporte para ir trabalhar. E ainda pagamos pelo transporte para chegar lá, seja de carro ou de ônibus.

PRINCÍPIOS DA VIDA COMUNITÁRIA PROJETADA

Nossas vizinhanças, nossos bairros, são desertos, tanto em termos sociais como de lazer. Muitas das nossas atividades sociais, amigos, esportes, acontecem a 10km de distância de onde vivemos. No entanto, se atividades que queremos fazer com mais freqüência são organizadas dentro da vizinhança enquanto as atividades que queremos fazer uma vez por mês estão na vila ou no bairro vizinho, a vida passa a ter uma grande intensidade local.

A comunidade da vizinhança ou vizinhança comunitária pode ser projetada ou adaptada para criar essas oportunidades. Será uma comunidade projetada com indivíduos colocados no centro do sistema. Pode se desenvolver como um sistema dentro de outros sistemas: uma comunidade familiar dentro de um conjunto comunitário, dentro de uma vizinhança comunitária, num bairro comunitário dentro de uma vila comunitária em uma cidade, dentro de uma região e assim sucessivamente até uma estrutura de nível global. A vizinhança comunitária pode se gerir como um negócio, mas com uma orientação mais social, comunitária e produtiva.

Os benefícios da vizinhança comunitária são enormes para seus indivíduos. Um dos mais lembrados é poder ver as crianças crescerem. Mas, além disso, há grandes vantagens em se reunir recursos comuns. Cria-se um potencial para construções de centros comunitários, instalações para esportes e encontros sociais, pontos de reunião, cafés, depósitos para possibilitar a compra conjunta de produtos no atacado como alguns alimentos, roupas, materiais de limpeza e higiene e muitos outros. Centros de empréstimos de máquinas, aparelhos, ferramentas, livros e brinquedos, reciclagem de materiais de construção de segunda mão, e muitos outros benefícios pessoais, sociais, éticos, ambientais e econômicos, numerosos demais para citar aqui, podem ficar disponíveis para nós.

ESTÁGIOS DE SUCESSÃO

A vizinhança e seus projetos podem evoluir através de estágios de crescimento e desenvolvimento, com cada estágio sucedendo o anterior. Cada estágio pode assumir um aumento tanto na quantidade como na qualidade de produção, serviços, paisagem, atividade social, etc.

A ecologia nos dá um modelo muito bom para desenvolvimento comunitário global. Novas comunidade de plantas aparecem em estágios de desenvolvimento, do campo para a capoeira, daí para a floresta seca, daí para a floresta úmida. Cada estágio substitui o anterior. Eles vão sucessivamente permitindo em possibilitar que uma maior quantidade de matéria se mantenha ali. A área então se estabilizará em quantidade, como uma floresta, e então crescerá em qualidade como uma comunidade madura, atingindo maior sofisticação e integridade em seus processos de suporte e manutenção da vida.

Podemos imaginar a vizinhança comunitária atravessando uma série de estágios de desenvolvimento, de forma que processos mais eficientes de produção, processamento e distribuição de alimentos, vão se sucedendo. Formas melhores e mais apropriadas de construção, de partilha de recursos, de desenho e manutenção da paisagem, de programas de trabalho, de desenvolvimento de habilidades, de facilitação de encontros e resolução de conflitos vão acontecendo com o tempo.

PASSOS PARA ADAPTAÇÃO DA VIZINHANÇA

Pode-se fazer um desenho de uma vizinhança existente se adaptando na direção de uma vizinhança viva com o tempo. Os primeiros passos serão simples e podem começar na seguinte ordem:
- As pessoas poderiam começar a dialogar na vizinhança para reunir pessoas e procurar oportunidades;
- Um sistema LETS (sistema local de intercâmbio) pode ser implementado na vizinhança;
- As vendas de garagem na vizinhança poderiam ser coordenadas;
- Compartilhamento de habilidade, trabalhos, ferramentas e máquinas poderiam ser organizados. Uma grande máquina de lavar industrial, assim como um cortador de grama tipo tratorzinho podem se tornar mais acessíveis e ser compartilhados. A comunidade poderia introduzir um sistema de rodízio de livros, ou esquema para intercambiar material de construção e jardinagem de segunda mão;
- Um serviço de compra e distribuição de produtos por atacado pode ser organizado para comprar produtos mais baratos para todos;
- Residentes que são bons jardineiros poderiam fornecer verduras, legumes, frutas, ervas, temperos, oleaginosas e ovos, assim como cuidar dos jardins de outras pessoas, especialmente os jardins frontais às casas, para substituir o espaço dos gramados por plantas comestíveis e perenes;
- Depois de algum tempo, algumas cercas dos fundos poderiam ser derrubadas e os quintais formariam pátios comuns para as famílias, com atrativos variados;
- Uma casa vazia poderia ser comprada pela vizinhança para ser um centro comunitário. Uma segunda casa poderia servir como oficina para diversas atividades e artesanatos;
- Uma associação comunitária de construção poderia ser considerada;
- Uma revista periódica ou livro poderiam ser escritos sobre o processo de criação de uma vizinhança comunitária;
- Os governos e empreendedores deveriam ser confrontados e encorajados a construir novas vizinhanças de um modo mais criativo;
- Revistas e jornais locais poderiam ser contratados para pedir mais matérias e artigos sobre vizinhanças comunitárias.

O que nos torna entusiastas pela construção de comunidades em vizinhanças são coisas como uma pesquisa em bairros de Sidney, na Austrália, que mostrou que 74% dos residentes concordaram fortemente com a frase: “eu gostaria muito de trabalhar com outros em alguma coisa para melhorar minha vizinhança”.

Então, que tal começar?






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Esta reportagem foi extraída da revista “Permacultura Brasil”,
edição 7, páginas 24 e 25, para fins didáticos não comerciais.
Reproduzimos a reportagem na íntegra em respeito à idéia autoral de quem escreveu o original. Os diversos pontos de vista expressos nestes textos não são necessariamente os da Casa dos Hólons.
Entretanto, acreditamos que a diversidade de opiniões e idéias gera maiores debates e questionamentos, os quais enriquecem
e aperfeiçoam a busca por um estilo de vida mais sustentável e natural. + informações www.permacultura.org.br


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