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AS BASES CIENTÍFICAS DO HERBORISMO
  Enviado em Thu 06 Aug 2009 por thiago tognozzi (385 leituras)
Por Voltaire Froés*


Ao longo do desenvolvimento das culturas humanas, a relação entre o homem e o meio vegetal tem sido íntima e vital. Em realidade, o homem tem vivido com as plantas e dependido delas. Portanto, é compreensível, que através da pré história e grande parte da história, a botânica e a medicina, por razões práticas, tenham sido campos idênticos de conhecimento. O xamã em geral expert em botânica, provavelmente representa o profissional mais antigo da evolução social. A maioria das medicinas, assim como os alimentos do reino vegetal que agora usamos, não foram descobertos pela ciência da sociedade moderna, mas sim por métodos de tentativas praticadas por milênios, por culturas analfabetas. A arqueologia nos diz, que algumas drogas atuais mais conhecidas, são heranças do passado obscuro da pré história.

As plantas medicinais e as suas formas derivadas (extratos, xaropes, chás, triturações) constituíram durante séculos a base da terapeutica. A medicina científica desenvolveu-se e impôs-se no início do século 20 com as contribuições decisivas da fisiologia, farmacologia, química e bioquímica. Entretanto, as expectativas exageradas criadas sobre a química dos medicamentos, dos alimentos e da agricultura esbarraram no mesmo dilema: efeitos indesejáveis, prejuízos causados por seleção de outros agentes agressivos devidos, por exemplo, ao uso indiscriminado dos antibióticos. A completa dificuldade de combater os agentes viróticos cada vez mais agressivos e letais, fizeram os pesquisasdores voltarem a pesquisar métodos de tratamento menos agressivos.

Atualmente, as plantas medicinais estão sendo cada vez mais estudadas por outros pesquisadores dentro da ciência acadêmica, até porque representam um conhecimento anterior, “dejá vu” além de segurança e baixo custo. Assim, o Sistema Nacional de Saúde, preocupado com o súbito interesse das plantas medicinais, tem lançado portarias, leis e decretos quanto à sua utilização, visando segurança e bem estar da população, dedicando-se também ao controle de qualidade destes produtos veiculados pela mídia de todo o País nos meios de comunicação, anunciando panacéias para a maior variedade de curas e tratamentos. Claro que, nesta enxurrada de leis e decretos, vez por outra, equívocos são cometidos, como aqueles de desagradável lembrança para médicos que prescrevessem fitoterápicos e florais, pois tais produtos não têm “nenhum respaldo científico”. Obviamente, os caros colegas desconheciam por completo o esforço conjunto que a comunidade científica, pública e privada, além de órgãos estrangeiros têm dedicado ao estudo e pesquisa das plantas medicinais. Desconheciam também a longa linhagem dos ervateiros, curandeiros, raizeiros, pajés e xamãs em nossa Amércia, desde o norte até a Patagônia, que trazem o conhecimento herdado de várias gerações de experimentadores puros, que detém o conhecimento empírico.

Outros fatores como custo econômicos, difícil acesso da população à assistência médica e farmacêutica, além de uma tendência dos consumidores a usar produtos de procedência “natural, orgânica”. Aí está também o conceito de que os medicamentos químicos não são isentos de riscos e sua ingestão deve ser parcimoniosa ou somente naqueles casos em que existe risco de morte.

A mídia tem divulgado descobertas de plantas medicinais de ação quase milagrosa, o que leva a modismos como o do confrei, do ipê roxo, da espinheira santa, da macela, etc. Isso leva ao consumo inadequado de plantas, muitas vezes sem alcançar aquele resultado que se buscava, o que muitas vezes acaba invalidando a planta para aquele fim.

Outro fato que tem preocupado os ecologistas, é a exploração predatória de algumas plantas milagrosas, em moda, podendo até colocá-las em risco de extinção. Bons exemplos são a cancorosa de três pontas (Jodinia rhombifolia), o ipê roxo (Tabebuia avellanedae), a macela (Achyrocline satureiodes) devido a exploração fonclórica da Páscua e o Taiuiá (Cayaponia spp.) da qual se extrai a raiz.

Um comite de plantas medicinais foi instituído em 1918, na França, junto ao ministério do comércio, para poder disciplinar o estudo, uso, importação, exportação destas plantas, até para poder controlar o uso e cuidar da recepção de divisas. Apesar dos anos, aqui no Brasil, não temos nenhuma organização estadual cuidando destes interesses, que até podem estar afetando a soberania nacional, uma vez que nossas plantas medicinais, saem de forma descontrolada do País, juntamente com nossa fauna, hoje contrabandeada nas sacolas de mão dos viajantes internacionais. Sendo assim, um Comitê Central das Plantas Medicinais, está a fazer falta no Brasil, reunindo cientistas, estudiosos, organizações não governamentais, curandeiros, xamãs, índios e herboristas em geral, que lutem para estabelecer uma política para Plantas Medicinais no Brasil na qual estariam definidos propostas, metas e divulgação para a comunidade do alcance desses medicamentos, além de uma unificação da nomenclatura, para evitar que duas plantas sejam conhecidas com nomes diferentes, dependendo da região.

A utilização de plantas medicinais é uma prática generalizada na medicina popular. É resultado do acúmulo secular de conhecimentos empíricos sobre a ação dos vegetais por diversos grupos étnicos. As observações feitas até agora permitem supor que todas as formações culturais fazem uso de plantas como recurso medicinal. Daí surge a questão anterior: porque não é mais estudada e assumida pelos médicos? Cecin, 1980, mostrou altos índices de plantas medicinais em levantamentos nos bairros de Porto Alegre, 64% da população de classe média do bairro Petrópolis, 84% Vila Mapa. Correa, 1982, em outra vila popular observou em 88% das moradias visitadas, 35% de medicamentos de plantas medicinais.



*Voltaire Fróes é médico homeopata e atua com fitoterapia em Porto Alegre, RS. voltairefroes@hotmail.com






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Esta reportagem foi extraída da revista “The Ecologist Brasil”, edição outono de 2003, páginas 26 e 27, para fins didáticos não comerciais. Reproduzimos a reportagem na íntegra em respeito à idéia autoral de quem escreveu o original. Os diversos pontos de vista expressos nestes textos não são necessariamente os da Casa dos Hólons. Entretanto, acreditamos que a diversidade de opiniões e idéias gera maiores debates e questionamentos, os quais enriquecem e aperfeiçoam a busca por um estilo de vida mais sustentável e natural.
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