| PAZ - COMUNIDADE INTENCIONAIS E RESOLUÇÃO DE CONFLITOS |
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| Enviado em Fri 23 Oct 2009 por thiago tognozzi (57 leituras) |
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Na terceira reportagem da série sobre justiça não estatal, o Jornal do Magistrado mostra como se resolvem conflitos em comunidades intencionais. Elas experimentam modelos de vida mais libertários e resolvem suas questões na base do diálogo. A expressão “viver em paz” não é só um clichê para quem vive em comunidades intencionais como as ecovilas ao redor do mundo. Fazer a paz e vivê-la é como uma obsessão entre as pessoas destes lugares. O que não quer dizer que elas não conheçam conflitos e disputas. Eles existem. Mas estas comunidades desenvolveram diferentes maneiras de encará-los, onde o diálogo e o entendimento desempenham papel fundamental. Comunidades intencionais acompanham praticamente toda a história da humanidade, com os mais diversos propósitos. Em território brasileiro, as primeiras experiências talvez tenham sido as dos jesuítas nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul, ainda no século XVII. Este tipo de assentamento ganhou importância no mundo a partir da revolução industrial, no século XVIII, que em pouco tempo transformou cidades como Londres em lugares inabitáveis. O fechamento das propriedades rurais na Europa, na transição do feudalismo para o capitalismo, expulsou da terra milhares de camponeses, que se refugiaram nas cidades, conformando o enorme exército que alimentou o grande salto da produção industrial. Não havia moradias nem escolas nem salários nem saneamento nem hospitais para atender a toda a população que procurou abrigo nas cidades. Pensadores que depois ficaram conhecidos como os socialistas utópicos buscavam então alternativas sustentáveis para os assentamentos urbanos. Caso do britânico Ebenezer Howard, autor das “Cidades-Jardins do Futuro”, um projeto de assentamento que reunia vantagens da vida no campo com as facilidades da cidade, conceito que depois foi assimilado pelo mercado imobiliário inclusive no Brasil - em São Paulo são famosos os bairros-jardins, inspirados em Howard. A própria Brasília incorpora em seu projeto a idéia da “cidade-parque”, como reconhece o próprio autor do projeto urbano da cidade, o arquiteto Lúcio Costa. A mesma geração contestatória dos anos 60, do movimento hippie, do maio de 68 e de Woodstock, deu novo impulso às comunidades “alternativas”. Hoje, as comunidades intencionais têm essa cultura entre suas referências. Algumas das comunidades criadas naquela época persistem até hoje. Mas novos valores foram incluídos nas comunidades intencionais, entre eles o conceito de sustentabilidade não apenas ambiental, mas também econômica, social, espiritual. Enfim, nas diversas dimensões do ser humano e da sua relação a Natureza e o mundo. Estas comunidades, mais comuns nos Estados Unidos e na Europa, começam a se firmar também no Brasil. Levantamento da organização “Intentional Communities” registra 431 comunidades pelo mundo afora, a maior parte nos Estados Unidos. Algumas delas especializaram-se em mediação de conflitos, como a comunidade de Lebensgarten, na Alemanha. A comunidade foi construída sobre uma antiga fábrica de munição que serviu à ditadura de Hitler. Era um lugar para onde ninguém queria ir, e por isso as terras valiam pouquíssimo. Hoje é uma comunidade que desenvolve tecnologias sustentáveis e exporta metodologias para mediação de conflitos. Eles desenvolveram também um caminhão movido a energia solar, que circula dentro da comunidade. Um dos principais problemas que enfrentam é o silêncio. O motor elétrico do caminhão não faz barulho e, por esse motivo, passaram a acontecer pequenos atropelamentos (o caminhão anda devagar). Agora, eles consideram a possibilidade de equipar o caminhão com um sino. Uma das mais tradicionais comunidades deste tipo no mundo está na Escócia, a Findhorn. A comunidade tem mais de 40 anos e conta com população entre 500 e 600 pessoas. Nasceu em 1962, num antigo lixão. Com muito trabalho, a comunidade mudou a cara do lugar. O solo foi praticamente construído de novo, com o uso intenso de compostagem. Uma terra que não tinha nada além de substâncias tóxicas, hoje produz seis vezes mais do que a comunidade é capaz de consumir. O lugar ficou famoso por produzir repolhos de até 20 quilos. May East é uma brasileira que mora há anos em Findhorn. A casa dela é um antigo barril de uísque descartado por uma fábrica. Ela conta que qualquer decisão na comunidade envolve muita conversa. Às vezes até demais: em certa ocasião, a discussão em torno da cor do carpete a ser instalado em uma casa coletiva durou mais de dois anos. Da mesma maneira, os conflitos e disputas também são resolvidos com muita conversa. Mas até para conversar é preciso se educar e, como fizeram com a terra, eles desenvolveram alguns métodos para tornar a conversa mais “produtiva”. “Para nos comunicarmos existem dois movimentos: falar e ouvir. Mas na maior parte do tempo as pessoas tendem a fazer uma comunicação defensiva”, diz May. Ela conta que faz parte da mitologia dos quakers a história de que Deus, quando criou o mundo, escreveu num papel a palavra “verdade”. Desde então, cada criança que nasce recebe um pedacinho daquele papel. Por isso, todas as pessoas carregam uma verdade, que é um pedaço da grande verdade. Por este motivo, todas as vozes merecem ser ouvidas. Ao longo dos mais de 40 anos de experiência, a comunidade de Findhorn já experimentou diversas “fórmulas” para a resolução de conflitos. “Antes, chamávamos pessoas não envolvidas no conflito para ajudar a resolvê-lo. Depois percebemos que ninguém resolve conflito de ninguém. A solução não pode vir de fora. Então, passamos para outro momento, o de facilitação de conflito. Mais recentemente, percebemos que a forma com que se observa a realidade é a forma que a realidade se apresenta. O nome que se dá à realidade é a maneira como o problema se apresenta. Se eu me apresento como facilitadora de conflito, fica claro que alguém vai perder. Então agora a gente fala de facilitação de diferenças”, explica May. A resolução de conflitos em Findhorn em geral obedece a algumas instâncias de discussão. Se o problema é entre duas pessoas, o primeiro passo seria a tentativa de solução dos problemas entre as partes, sem recorrer a terceiros. Caso as duas pessoas encontrem dificuldades para chegar a um acordo, chamam uma terceira pessoa. Se ainda assim não houver solução, o caso é levado para dois grupos. Normalmente as pessoas estão ligadas a grupos de profissões, por exemplo. Se a diferença é entre uma jardineira e um cozinheiro, então são chamados todos os cozinheiros e todos os jardineiros para ajudar a resolver o problema. Se ainda assim o problema persistir, apela-se para os Peace Makers (fazedores da paz), uma espécie de conselho de anciãos, formado por um grupo de 5 a 7 pessoas entre os mais antigos da comunidade. Esse estágio, porém, embora previsto nas regras da comunidade, raramente foi usado. Um morador mais antigo, que está há 36 anos em Findhorn, se lembra de ter visto apenas uma ou duas questões chegarem lá. Findhorn e a maioria das comunidades trabalham também com base no consenso na hora de tomar decisões. Diferentemente da democracia formal, o consenso admite três posições: os participantes podem apoiar, ficar de lado ou bloquear. A primeira não supõe um apoio incondicional a uma proposta, mas uma aceitação no sentido de continuar discutindo e evoluindo em determinado sentido. Ficar de lado é como pedir um pouco mais de tempo para afunilar a discussão. É a alternativa para quem ainda não se sente pronto para decidir. Finalmente, bloquear determinada proposta é a posição mais radical e é adotada por alguém que não vê possibilidade de reconciliação. Alguém que adote esta posição será chamado para ajudar a desenhar uma nova proposta. Mas esta alternativa é outra que existe para não ser usada, na maioria dos casos. Em Findhorn, segundo May, raramente alguém bloqueia uma proposta. Os problemas em geral são detectados numa fase de supervisão, uma espécie de checagem periódica entre os grupos e as pessoas para identificar pontos de tensão. “É como um trabalho de assepsia, feita por um facilitador em cada grupo, no sentido de manter a comunicação aberta, evitando que se chegue ao conflito”, explica May. É claro, porém, que as pessoas terão oportunidades de bloquear propostas, mas se isso começa a se tornar comum para alguém é sinal de que há algo errado. “Se você está bloqueando muito, pode ser que você esteja no lugar errado”, avalia a brasileira. Em outra comunidade, a de Tamera, em Portugal, as pessoas sequer conseguem falar sobre como são tratados os casos de conflitos graves, porque elas simplesmente não se lembram de ter havido um. Os integrantes de Tamera pretendem, com seu trabalho, transformar a comunidade em um “biótopo de cura”. Eles promovem encontros, cursos, seminários e oficinas durante todo o ano para centenas de visitantes. O objetivo é montar um modelo para uma cultura da paz no mundo. E não é só discurso. Neste momento, trabalham para ajudar na pacificação entre israelenses e palestinos. Todos os anos, a comunidade recebe grupos de palestinos e israelenses para oficinas, num esforço para ajudá-los a descobrir maneiras para que possam viver juntos. Um segundo passo será montar aldeias de paz em Israel e na Palestina, com base na experiência acumulada pelas oficinas. A comunidade já tem 26 anos. Atualmente, vivem e trabalham em Tamera cerca de 80 pessoas. O projeto da comunidade prevê a inclusão de “algumas centenas” de pessoas que “convivam segundo os princípios da cooperação não-violenta, em harmonia com todas as demais criaturas e estabeleçam uma base para o trabalho pela paz global” Em Tamera, a preferência é que os conflitos não sejam tratados apenas entre duas pessoas, mas diretamente no grupo, que eles chamam de “fórum”. Estes fóruns, grupos que têm entre 15 e 30 pessoas, se reúnem diariamente para discutir os mais diversos assuntos. E é para lá que os conflitos e disputas também devem ser levados. “Entre duas pessoas, normalmente reage-se muito rápido. Acaba por tornar-se impossível perceber o outro”, avalia Amelie Weimar, que vive na comunidade desde 1991. “Sem o fórum, a comunidade não teria sobrevivido às muitas crises interiores e exteriores”, avalia. Para os habitantes de Tamera, os relacionamentos humanos devem estar embasados na transparência da relação, o que gera a confiança necessária entre os integrantes. A experiência em Tamera mostrou que em geral os conflitos que aparecem no grupo não são temas individuais, mas comuns à humanidade e históricos. “A estrutura dos conflitos acaba por ser sempre muito parecida. Tentamos mostrá-los no fórum de tal forma que o aspecto universal se torne mais visível nele”, diz Amelie. Outro aprendizado feito pela comunidade é que a maioria dos conflitos tem origem de ordem sentimental. “Quase todos temos nossas maiores feridas na área do amor e muitas vezes devemos isso à infância: desapontamento, medo de perda, de não ser entendido, solidão, ser enganado, violência psíquica e corporal. Muitas vezes os mecanismos de sobrevivência ou proteção da alma, que montamos nesta idade, caracterizam consciente ou inconscientemente todo o nosso comportamento adulto”, avalia Amelie. Há pouco tempo a comunidade elaborou um estatuto, com regras básicas para o convívio. Se alguém infringe estas regras, será convidado a falar sobre isso no fórum. “Não há uma condenação implícita, mas o desejo de conhecer e entender o que aconteceu. Se a pessoa se arrepende, será perdoada”, diz Amelie. Este princípio, no entanto, vale para infrações leves. Ela não sabe o que aconteceria numa infração mais grave, porque isto nunca aconteceu na comunidade e sequer está previsto em suas regras. “A pessoa poderia ser excluída de determinados encontros ou poderia ser afastada da comunidade durante um tempo”, especula outra integrante da comunidade, Meike Muller. Amelie Weimar faz parte da comunidade desde 1991 e não lembra de nada mais grave envolvendo seus membros. Quando determinado assunto não é resolvido no fórum, forma-se outro círculo, ampliado – às vezes com todos os membros da comunidade – e fazem-se novas discussões, até que se chegue a um ponto comum. Mas da mesma maneira que em Findhorn, não há muita divergência entre os integrantes. “Quem não é capaz de seguir as bases éticas da comunidade não vai querer ficar, porque não vai se sentir bem aqui, não terá uma âncora”, diz Meike. O gaúcho André Soares, que vive hoje numa ecovila em Pirenópolis, Goiás, já rodou o mundo conhecendo experiências de comunidades intencionais. Segundo ele, não levar os conflitos internos para a Justiça formal é uma questão de honra para as comunidades. “Quando um problema de justiça sai do âmbito da comunidade, a tendência é que o grupo passe por um período de crise muito forte, porque desaba o sonho. Depois, ou a comunidade se deteriora e desaparece, ou se fortalece. Em geral, é depois disso que se identifica a importância de criar regras claras. Muitas comunidades não gostam disso, principalmente as mais hippies, mas cedo ou tarde chegam à conclusão de que elas são necessárias”, avalia. Em comunidades grandes, segundo André, é comum a existência de comitês de justiça, que funcionam como tribunais para resolver disputas, como uma espécie de poder judiciário paralelo. “As comunidades intencionais experimentam possibilidades mais libertárias, mas também precisam ter regras claras. Não é à toa que temos um sistema de justiça formal”, diz. .................................................. Esta reportagem foi extraída do ”Jornal do Magistrado”,Associação dos Magistrados Brasileiros, ano 15, agosto de 2004, numero 74, para fins didáticos não comerciais. Reproduzimos a reportagem na íntegra em respeito à idéia autoral de quem escreveu o original. Os diversos pontos de vista expressos nestes textos não são necessariamente os da Casa dos Hólons. Entretanto, acreditamos que a diversidade de opiniões e idéias gera maiores debates e questionamentos, os quais enriquecem e aperfeiçoam a busca por um estilo de vida mais sustentável e natural. Site: www.amb.com.br |
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